Negócio em Primeiro Lugar: meus maiores insights no 4CIO Private Sectors
Passei quatro dias no 4CIO Private Sectors, em Foz do Iguaçu, e voltei com uma convicção mais clara do que eu esperava: a parte difícil da IA nas empresas deixou de ser a tecnologia e passou a ser a capacidade do negócio de decidir bem sobre ela. Onde ela entra, de quem ela depende, o que se espera dela e quem responde quando algo sai do previsto.
A primeira coisa que me chamou atenção foi justamente o que não estava em discussão. Ninguém ali ainda se perguntava se valia a pena adotar IA, e os números confirmam o que ouvi nos corredores: segundo o State of AI 2025, da McKinsey, 88% das organizações já usam IA em pelo menos uma área do negócio.
O tema do evento era Paradoxo: a arte de liderar o caos, mas quem melhor resumiu o clima foi um executivo de tecnologia de uma cooperativa financeira cliente: “o excelente caos”.
A tecnologia nunca foi tão acessível, e justamente por isso a vantagem deixou de estar no acesso e passou a estar na capacidade de escolher onde aplicar.
Quero compartilhar aqui os insights que mais me marcaram. E vale ler até o fim, porque deixei alguns dados bem interessantes por lá.
Decidir sem mapa
A plenária de abertura foi do Emanuel Pessoa, com uma pergunta que nos acompanhou pelo resto do evento: como decidir quando o cenário global muda radicalmente a cada seis meses? E apontou um descompasso que, depois de visto, não dá mais para ignorar: o cenário muda em meses, mas os contratos que assinamos hoje comprometem a empresa por anos.
Isso me levou direto para a época em que eu trabalhava com engenharia. Uma obra leva bem mais de um ano para sair do papel, e nesse meio tempo muda o preço do insumo, muda a necessidade do cliente, às vezes mudam até as leis. O planejamento que funcionava era o que deixava margem para ajustar a rota sem derrubar o que já estava de pé.
Nas conversas com líderes de tecnologia, essa ideia tinha um nome bem concreto: lock-in, a dependência de um único fornecedor, modelo ou formato que fica cara e lenta de reverter. Curiosamente, foi essa mesma preocupação que deu origem ao Prismon, a solução que apresentamos no evento. Internamente, sentimos na pele a pergunta: como aproveitar o melhor de cada modelo sem perder a liberdade de mudar de caminho? Depois de mais de quinze anos de consultoria em tecnologia, trabalhar com a premissa de que alguma peça vai precisar ser trocada conforme o negócio muda já é quase automático para nós, e o Prismon nasceu justamente desse cuidado aplicado ao nosso próprio uso de IA.
Saí dessa palestra com a convicção de que a vantagem está menos em acertar a previsão e mais em tomar decisões que continuem de pé quando o contexto mudar. E decisões assim costumam ter algo em comum.
O negócio vem antes da ferramenta
Foi exatamente o tom de uma conversa com um CIO do setor agro e cliente da Premiersoft. O assunto era IA no agro, mas ele começou pelo produtor: o que melhora a rentabilidade de quem está no campo e o que muda na operação da cooperativa. A IA aparecia sempre como meio, nunca como o assunto principal.
Parece óbvio, mas quem trabalha com tecnologia sabe como é fácil inverter essa ordem. Nas nossas salas em Foz, escolhemos de propósito deixar a demonstração para depois e abrir cada conversa com uma pergunta: “Hoje, você está satisfeito com o nível de visibilidade e governança sobre o uso de IA na sua empresa?”. Poucos estavam, e o que veio dali foi muito mais rico do que qualquer apresentação.
Um executivo financeiro da 4Network completou o raciocínio: a solução quase sempre nasce “de uma pessoa na ponta”, que vive o problema todos os dias. Segundo o MIT NANDA, só 40% das empresas compraram uma assinatura oficial de IA, mas em mais de 90% delas os funcionários já usam ferramentas pessoais no trabalho.
Para mim, essa é uma das mudanças mais interessantes do momento: a IA já não entra nas empresas só pela porta da TI, entra pela mesa de quem está resolvendo um problema concreto. E isso é uma ótima notícia! Justamente porque, com base nas inúmeras experiências que já tive no mercado, as melhores ideias tendem a nascer perto da operação.
Mas isso muda, e muito, o papel da liderança de tecnologia daqui pra frente.
Onde a máquina entra, e onde ela para
Esse novo papel passa a ser menos o de escolher a ferramenta e mais o de dar direção e deixar claro até onde cada uso pode ir.
Esse “até onde” foi o centro de um painel sobre liderança algorítmica, conduzido por um especialista em IA aplicada ao jornalismo e à governança de decisões. Em vez do debate de sempre sobre diminuir as cadeiras, a pergunta era o que faz sentido delegar à máquina e o que precisa continuar sob decisão humana. Três ideias ficaram comigo:
Poder ser automatizado não significa dever ser. A decisão passa pelo contexto e pelo papel daquela atividade no negócio.
Delegar a execução não elimina a responsabilidade. Alguém continua respondendo pelos critérios e pelas consequências.
Liderar inclui desenhar fronteiras: onde a IA atua sozinha, onde precisa de supervisão e onde o julgamento humano é essencial.
Vocês não imaginam quantas vezes um cliente chegou até nós pedindo para “automatizar esse processo com IA” e a conversa mais valiosa acabou sendo outra: entender se o processo fazia sentido como estava e em que pontos poderíamos potencializar tanto o uso da tecnologia quanto o funcionamento do negócio como um todo. Muitas vezes, o projeto final saiu diferente do pedido inicial, mas o valor gerado ultrapassou qualquer expectativa anterior. E esse é o tipo de conversa que mais gosto de ter.
Só que traçar essa fronteira levanta uma pergunta difícil: como fazer isso se, na maioria das vezes, ainda não sabemos o que vai funcionar?
Experimentar com método
A resposta mais honesta que ouvi veio de um diretor de tecnologia da indústria: “Uma empresa precisa conseguir experimentar mais de uma vez, aprender com o que deu errado e abandonar a expectativa de que toda iniciativa entregue resultado imediato.” No painel sobre liderança algorítmica, a mesma ideia apareceu por outro ângulo: o que mais trava a adoção hoje não é limitação técnica, é a pressão por acertar de primeira.
Concordo muito, e adiciono um complemento: o problema raramente está em errar, e sim em errar sem saber o que se queria aprender com aquele teste.
Os números ajudam a enxergar isso. A McKinsey mostra que perto de dois terços das empresas ainda não conseguiram levar a IA além da fase de piloto, e só 39% conseguem apontar algum impacto no resultado. O Gartner já tinha previsto que pelo menos 30% dos projetos de IA generativa seriam abandonados depois da prova de conceito até o fim de 2025, e agora estima que mais de 40% dos projetos com agentes de IA serão cancelados até 2027. Nos dois casos, os motivos se repetem: custos que crescem, controles de risco insuficientes e, principalmente, valor de negócio pouco claro. O MIT chega a uma conclusão parecida: a maior parte dos pilotos que não avançam esbarra no desencaixe com o trabalho do dia a dia, muito mais do que na qualidade dos modelos.
Em outras palavras, o que costuma faltar não é tecnologia, é critério. Vejo isso com frequência: muitas demandas que chegam até nós passaram antes por um teste que todo mundo aprovou no kickoff e que, meses depois, ninguém sabia dizer se tinha dado certo, porque ninguém tinha definido o que seria dar certo. O direito de errar funciona melhor com alguns critérios combinados antes:
O que queremos aprender?
Que problema do negócio isso resolve?
Quanto tempo e investimento faz sentido dedicar?
Que evidência justifica continuar?
Em que cenário encerramos e partimos para outra hipótese?
Quando o erro tem tamanho, prazo e custo combinados, ele deixa de ser ameaça e vira informação.
“Não frear, mas liberar com segurança”
A frase veio de um CIO do setor industrial, numa conversa com a liderança da Premiersoft sobre sua maior preocupação com IA hoje. Ela resume o equilíbrio que quase todo mundo ali buscava: não dá para esperar a IA estabilizar, e também não faz sentido adotar tudo só porque está disponível.
Ajuda lembrar que o maior valor da IA nem sempre está em cortar custo. Muitas vezes está no tempo que se ganha entre ter uma ideia e colocá-la no mercado. Não por acaso, segundo a McKinsey, as empresas que mais capturam valor usam IA para crescer e inovar, e não só para ganhar eficiência.
Mas, para liberar com segurança, primeiro é preciso enxergar o que já está acontecendo. E foi aí que os números reais do 4CIO Private Sectors me surpreenderam.
Os números dos líderes de tecnologia, e o que eu levo daqui
Durante o evento, coletamos dados de 59 empresas que passaram pelas nossas salas. O retrato que apareceu foi este:
7 em cada 10 (41 de 59) colocam governança de IA como prioridade alta ou máxima para os próximos seis meses.
Mais da metade (33) não tem um processo definido para testar uma nova capacidade de IA.
Menos de 1 em cada 5 (11) tem alguém dedicado ao tema dentro da TI.
Só 15% (9) conseguiriam auditar por completo o uso de IA e os dados envolvidos nos últimos 90 dias.
Ou seja, para cada empresa que hoje consegue enxergar o que a IA está fazendo dentro de casa, existem mais de quatro que a tratam como prioridade máxima.
Não é falha de ninguém. É o retrato de uma tecnologia que entrou nas empresas mais rápido do que elas conseguiram se organizar, e os líderes de tecnologia do evento estão longe de ser exceção. No Brasil, a Netskope mostra que 52% de quem usa IA generativa no trabalho ainda recorre a contas pessoais. O Gartner aponta que 69% das empresas suspeitam ou já têm evidências de que funcionários usam ferramentas de IA não autorizadas. E o Cost of a Data Breach 2026, da IBM, mostra o preço disso: a IA não autorizada já aparece em 43% dos vazamentos de dados, mais que o dobro dos 20% do ano anterior, e 68% das empresas afetadas ainda não tinham uma política de governança de IA concluída.
Se eu tivesse que resumir o 4CIO Private Sectors em uma frase, seria esta: a corrida da IA já não é para ver quem adota primeiro, e sim para ver quem consegue enxergar, decidir e sustentar o que adotou.
A tecnologia vai continuar mudando, e rápido. Novos modelos vão aparecer, os custos vão cair e o que hoje parece avançado vai virar padrão. O que não sai de moda é a capacidade de cada negócio de escolher bem onde a IA entra, como ela é acompanhada e o que se espera dela. É isso que vai separar quem usa IA de quem realmente captura valor com ela.
E é isso que mais me motiva, a cada dia: ajudar organizações a tomar essa decisão, mesmo quando ela mostra que a prioridade está em outro lugar.
Obrigado aos líderes de tecnologia pela franqueza, à 4Network pelo ambiente de troca e ao time da Premiersoft nos bastidores.
Que venha o próximo!




